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Os acepipes do 'Grande' Vitor (68 imagens)
Data: Outubro de 2008
Autor: A. Augusto de Sousa

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Fotografias e percurso com indicação de declives também disponíveis em formato geo-referenciado em Google Earth.

Aproveitando uma deslocação de índole profissional a Évora, aproveito o convite anterior dos amigos Vitor e Paulo: pedalamos? "Se um diz mata, o outro diz esfola", vamos pois, há chaparros, pedras, e outros acepipes... Na tarde de 17 de Outubro de 2008, juntam-se as vontades de dois portuenses, eu e o António, e de um Gaiense, Vitor, de alcunha "Grande", pela estatura e não só. O Paulo, por motivos profissionais, acabaria por não poder comparecer...

A coisa começava na herdade da Mitra, pertença da universidade e local de residência do Vitor... Trata-se de uma quinta associada a um antigo convento que dá realce a qualquer passeio de BTT... o velho chafariz e o casario baixo constituem um belo postal ilustrado de convite, como que a apontar para um belo "mix" de radical e cultural que nos esperava ao longo de cerca de 25 quilómetros.

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A saída far-se-ia por um trilho estreito e algo serpenteante nas imediações do riacho local e, claro, com acesso a uma ponte que, não sendo multicentenária, não deixa de apresentar uma beleza particular. Ali tomaríamos a estrada alcatroada durante alguns metros para, e de acordo com as previsões do Vitor, termos acesso a uma sequência inicial e engraçada de estradões de terra. Animais de pasto, vegetação baixa e seca, faziam o principal da paisagem, se bem que os inevitáveis chaparros por ali "descansam" em grande número, também davam o seu contributo! Quem não parecia cansar-se era o Nero, amigo canino e habitante vadio da Mitra, que nos acompanhou em corrida constante durante uns bons quilómetros...

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Primeiro ponto de paragem: o Marco Miliário da Mitra. Já não cumpre a sua função de assinalar a sétima milha da via romana que ligava Évora a Alcácer do Sal, mas é ponto obrigatório de visita, nomeadamente no vasto catálogo turístico local.

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Mais uns quantos metros de "pedalação" e, surgida de entre os chaparros, em ligeiro desnível, eis que prende a nossa atenção uma cobertura de chapa ondulada: alta e volumosa, abriga aquela que é a mais alta estrutura funerária megalítica da Europa, a Anta Grande do Zambujeiro. Por questões de segurança, encontra-se agora encerrada, mas basta olhar o exterior para nos sentirmos muito fraquinhos... A questão impõe-se: "como é que, sem recurso a guindastes ou outras ferramentas pesadas, foi possível colocar ali semelhantes massas pétreas?"

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Continua a paisagem tipicamente alentejana a acompanhar-nos... os trilhos de terra contêm uma porção apreciável e por vezes profunda de areia, o que dificulta a progressão e causa algumas "desavenças" com a direcção. O declive não é, em geral, muito inclinado, mas a planura não é total, cansa um pouco. De quando em vez, as cercas opõem-se à normal progressão nos caminhos e é necessário abrir os improvisados portões feitos de rede e estacas: "é preciso é deixar tudo conforme estava, ninguém se incomoda com isto", dizia o nosso guia, demonstrando alguma prática no assunto.

Regressa a vertente cultural... se uma via romana existiu, comprovada pelo Marco Miliário anterior, as pontes não poderiam faltar para a necessária travessia das linhas de água da zona. No Monte da Ponte, um belo exemplar da magnífica engenharia da época enche as vistas dos passantes, pese embora o facto de a água ali já não passar...

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Seguir-se-iam o Menir e o Cromeleque dos Almendres, o primeiro a ser acedido por um corredor engraçado, limitado por redes, com direito a avisos insistentes do Vitor: "há uma curva que requer cuidados..." Já no Cromeleque, as várias dezenas de pedregulhos, quais ovos em ninho de mastodonte, proporcionariam pela certa uma boa tarde de fotografias, cada qual mais bela do que a anterior! O estranho ambiente do local parece atrair certos grupos que, nos seus transportes com habitação, ali permanecem ouvindo a sua música em altos decibéis...

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Terminada a visita cultural, chegava agora a hora da diversão! Uma descida técnica, com muito calhau solto e não só, alegrava as hostes e fazia subir a adrenalina; terminava-a uma pequena subida com direito à observação de uma construção também "mega-qualquer-coisa" mas de época recente e feita de um bem mais prático cimento, provavelmente servindo de demarcação territorial, ora complementada por nova cerca e improvisado portão.

Aquele era um ponto alto, um topo, numa serra algures no meio da planura regional. Assim, não será de estranhar o elogio à paisagem que logo de seguida se vislumbrava, qual mar ou vale de dimensão infinita, lá no fundo... O contraste na altimetria torna estranha tal observação: impressiona, o facto de se estar num ponto tão alto, no meio de uma tão grande área plana.

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Ao longo da crista da serra era agora possível ver uma linha desenhada por mão habilidosa e radical: num sobe e desce constante, absolutamente inesperado em região de definição plana, a pista que se seguia era um verdadeiro hino à prática da Bicicleta de Todo o Terreno! As descidas soltavam os risos e os gritos de alegria, as subidas só a custo de alguma inércia se faziam; quanto ao piso, de terra com alguma pedra à mistura e com alguns regos de escorrências pluviais, não dava descanso e foi com pena que aquele troço se completou.

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Num tom mais francamente descendente e já com trajecto de regresso, passar-se-ia ainda por bela e antiga quinta, a de Provença, voltando a ascender-se por percurso pedestre devidamente marcado.

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O destino era, no ponto mais elevado, o local das ruínas usualmente conhecidas pelo "Castelo de Geraldo Sem Pavor". Bicicletas pousadas, é a pé que se visita o local, cujo desenho de construção granítica apresenta interessantes figuras e mantém viva a forma voluntariosa como, ao serviço do primeiro monarca, Geraldo terá conquistado Évora.

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Desde o início do passeio que o Vitor se referia a um brinde especial que tinha preparado para nós, na forma de uma tal descida "mais do que radical". Logo à saída do castelo, deixa-se ficar para trás e diz "vão à frente, é agora!!!!"

Convenhamos que, mau grado o facto de ser descendente, o trilho em causa não era praticável por vulgares mortais... aquilo não era um trilho, era um rego, por vezes profundo, com vinte centímetros de largura e muita pedra e buracos à mistura, evoluindo em curvas e contra curvas de diâmetro apertado que impediam o normal avanço... a pé, pois claro! E se no final as dificuldades diminuíam, de forma a permitir a "pedalação", logo a areia profunda da pista repunha a verdade da coisa oferecendo mais uma magnífica peça para a colecção de "tombofilismo" de certo repórter... A ausência de fotografias é justificada...

No regresso, e já perto do ponto final do passeio, haveria ainda que passar-se por uma infraestrutura desportiva e, pouco depois, por uma represa de água que se contornaria. "Preparei esta especialmente para ti", dizia-me então o Vitor, sorriso de orelha a orelha, referindo-se à subida técnica que se colocava perante nós! Não percebi bem se ele se referia ao meu gosto particular pelas (pequenas) dificuldades técnicas, ou aos meus célebres empenos com origem em trilhos que "apontam para cima"... mas lá que valeu a pena o esforço de fazer frente àqueles degraus pétreos naturais, isso valeu!

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Chegados de novo ao ponto de partida, quis ainda o Vitor presentear-nos com uma "visita guiada" ao complexo universitário da Mitra, com direito a vista "aérea" sobre uma parte do mesmo! E se, tal como se disse anteriormente, um convento por ali havia, belas peças haveria de conter, certo? Tempo era de as conhecer, fossem elas ruínas de aquedutos, belos lagos artificiais, casas de água, labirintos jardinados... ou simplesmente escadinhas "p'ra BTTista descer", tudo num conjunto arquitectónico de grande beleza que dá pelo nome de Convento do Bom Jesus de Valverde.

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Se expectativas havia sobre um passeio de BTT pelas cercanias de Évora, foram todas ultrapassadas por tudo o que o Vitor nos preparou e ofereceu! Um passeio que, não esquecendo a vertente mais radical de BTT, juntou no mesmo prato as principais atracções turísticas da região, numa amostra magnífica do que se pode por ali encontrar: paisagens, peças culturais, planura, subidas, descidas, velocidade, técnica e... empeno. Afinal, nem só de chaparros vive o Alentejo profundo!

Numa visão mais académica do passeio, dir-se-ia que foi obra magnifica, com pleno direito a classificação de "Muito Bom, Distinção e Louvor", atribuível, direitinha, ao amigo Vitor "Grande". Para ele, um agradecimento especial pela forma como nos recebeu, no seu quintal e na sua casa, com a esperança de, um dia, lhe devolver o "cumprimento".

Uns dias antes, em troca de mensagens por e-mail, dizia-me o Vitor que "os trilhos alentejanos criam vício"... Aproveitando a deixa, aproveito para me despedir com um, assim adequado:

Adeus e até ao próximo empeno... "cumpadres"!

A. Augusto de Sousa

Fotografias e percurso com indicação de declives também disponíveis em formato geo-referenciado em Google Earth.

Ligações com interesse:
    Informação sobre percursos na região.
    Informação sobre os monumentos visitados e outros.



A. Augusto de Sousa